Sejam bem vindos

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

O Conto do Relógio



Se bem me lembro, o bordel ficava na esquina da Rua das Borboletas. Era um sobrado amarelo, com grandes janelas azuis e alguns lampiões antigos no jardim da frente. Todas as noites, de longe, ouviam-se as palavras chulas e o cheiro do perfume barato se espalhava rapidamente pelas redondezas.

Naquela manhã, eu caminhava lentamente, meio que cambaleando, sob o efeito da ressaca. Era carnaval, e na rua podia-se ver ainda, vestígios de confetes e algumas serpentinas rasgadas deixados por algum bloco carnavalesco.
Sentia-me triste. Problemas no casamento.

Voltei ao bordel para recuperar meu relógio que esqueci no quarto da cafetina. Subi as escadas, bati na porta, que logo se abriu fazendo surgir a figura franzina e patética de Pietro, uma bicha tresloucada que fazia a faxina:
__Ai, o que quer? Não vê que estamos fechados? Essa casa só abre à noite!
Com nojo eu o empurrei, e logo fui entrando aos berros. A sala ainda estava envolvida em uma penumbra impregnada do cheiro acre de cigarros e perfuminhos de camelôs. Então gritei por Zelda, até que do alto da escada aparece Amaralina, uma das prostitutas da casa -  seios fartos e cabelo aloirado descia as escadas lentamente, com a blusa entreaberta revelando o tom róseo de seu mamilo:

__Que escarcéu! O que pensa que está fazendo? Assim vai acordar a senhora.
__Oras cale a boca! Quero meu relógio que esqueci na cama da Zelda.
Esse relógio era relíquia de família. De meu avô passou para meu pai, que passou a mim.
Amaralina continuava:
-Que relógio? Não sei de nada.
-Não se faça de tonta, sua vagabunda... você sabe de tudo por aqui, é a preferida dela.
-Nossa, meu bem, como está nervoso!? Aposto que brigou com a esposinha, não foi?
Quase meti a mão na cara dela, embora a infeliz estivesse certa. Eu estava mesmo preocupado, e com a pulga atrás da orelha como se costuma dizer.
Há alguns meses o comportamento de Clara estava muito esquisito. Ela saía muito, e sempre bem vestida, não me dando nenhum tipo de satisfação, quando na verdade esse comportamento deveria ser meu, afinal, EU ERA O HOMEM!!
-Vê se não enche e chama sua patroa.

Meio sonolenta, Zelda desce as escadas metida em um hobby de cetim vermelho, cabelos presos com uma fivela, e já com a piteira na mão, aproximou-se.
-O que quer homem com todo esse escândalo? Esqueceu que somos crias da noite?
Por um momento esqueci meu relógio, senti uma tontura e acabei vomitando ali, no meio da sala. Amaralina virou o rosto, levando a mão à boca numa expressão de asco. Pietro gritou como só uma bicha sabe fazer. Saiu resmungando, mas logo voltou e limpou toda a porcaria.

Logo Zelda me levou até seu quarto pedindo a Pietro que me trouxesse um chá.
-Olhe, fique por aqui até melhorar. Não me faltava mais nada agora, só cuidar da bebedeira dos homens...
-Quero meu relógio... Resmungava num sussurro.
-Fique quieto, preciso ir, vou cuidar de negócios. Acho que vou admitir mais uma rapariga hoje.
Logo fechou a porta, e eu deitado pensava:" -carne fresca"! Eu era mesmo um cafajeste.
Cochilei por alguns minutos, mas logo acordei com um toque de campainha. Abri os olhos, virei de um lado, virei de outro, sentei na cama. Ouvi vozes... "deve ser a tal moça", pensei. Resolvi então levantar e espiar cautelosamente, agachado ali no andar de cima na beira da escada. Eu estava certo, era a tal moça. Estava de costas. Que corpo! Que cabelos! Eram ruivos! Eu adorava uma ruiva. De repente, perdi o equilíbrio e caí da escada, rolando até o último degrau. E então, com os olhos arregalados com o rosto petrificado, com a boca escancarada e no braço o relógio espatifado-  me dei conta da catástrofe que se abatera sobre mim.
A nova moça do bordel era Clara!

By Lu Cavichioli


terça-feira, 25 de outubro de 2016

As Culpadas apresentam: MINICONTOS

Mutante
(by Patty D'Oliveira)


Dona de todos os olhares. Na festa, trajava vestido decotado.
Sensualidade, excitação e conquista aos aposentos do anfitrião.
 Pele desnuda revelando a serpente tatuada entre beijos e sussurros.
Anfitrião devorado, veneno trocado!




Patty D'Oliveira




Céus, Cores & Canteiros
(by Lu Cavichioli)

Quisera que as tulipas fossem azaleias, quando na verdade eram somente sementes.
As nuvens se abriam e os pássaros traziam na boca muitos ninhos que bebiam os céus. Céus de todo o mundo.
Enquanto na terra caminhava tranquila a mais linda das alvoradas. Talvez uma pequena, uma menina... A sensível joaninha!




Lu Cavichioli




quarta-feira, 12 de outubro de 2016

CONHEÇA UM POUCO SOBRE POEMINI

Pessoal, nosso terceiro vídeo já está no ar.



Espero que gostem, a gente deu somente uma pincelada em poeminis e mostramos alguns de nossa autoria.



Obrigada!



abraço das Culpadas*


quinta-feira, 29 de setembro de 2016

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

UM GÊNERO LITERÁRIO QUE CONVERSA COM A NOSSA ALMA!

POEMINI.


Uma maneira apaixonante de descrever um sentimento através de uma imagem. Foi exatamente assim que comecei meus primeiros POEMINIS. Depois desses quero muito mais.



                                POEMINI 1




                                                   POEMINI 2




                                POEMINI 3



Meus beijos,



 Patty D'oliveira.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Conversa de Vitrine - Epílogo


Caindo na Real




  Uma hora após Dona Clarice deixar a loja, consegui sem ser notada mudar a posição algumas vezes, contendo o desespero em sentir que a qualquer momento minha bexiga entraria em erupção.

Lembrei que hoje é sábado e o movimento do shopping é maior, e perto do almoço aumenta, é minha chance de escapar.  – Penso em agonia.
O entra e sai da loja é constante, com um alívio penso que a agitação faz com que ninguém note minha presença.

Anne está entretida com suas vendedoras e clientes. Sinto que chegou a hora e decido colocar um ponto final nessa história. A próxima cliente que entrar e todas estiverem novamente ocupadas, desencaixo meu pé da base saindo em disparada. Quando notarem minha ausência, estarei longe e usando minhas roupas.
Sinto-me ofegante ao escutar passos entrando na loja.
- É agora! - Eu penso.

-É aqui, galera. – Escuto uma voz familiar.
Isabelly volta com a galera como prometido.
- Qual é a manequim “Belle” que se mexeu? – Pergunta o baixinho da galera.
- Essa inteira de rosa. – Isabelly responde apontando em minha direção.

- EI MENINAS?!!  - Grita uma voz estridente na entrada da loja. – Acabou a folia, liberem passagem que Lady Kelly chegou.
- Lady, por favor, aqui! – Diz Anne acenando para o travesti mais lindo que já vi.  Seu rosto era mais perfeito que as manequins do shopping inteiro, seu perfume exalava com delicadeza e seu cabelo dourado contrastava com seus belos olhos verdes.

- Crianças liberem passagem, por favor, acaba de chegar novos manequins para minha vitrine, e preciso de espaço. – Ordena Anne.
- Xiii, a tia surtou! – Diz um dos amigos de Isabelly.
-Incomodariam em esperar lá fora, ou voltar mais tarde? – Diz Anne com delicadeza.

-Tia Anne, preciso mostrar a manequim que se mexeu para meus amigos. – Repete Isabelly manhosa.
- Eu sei meu anjo, prometo que mais tarde pode se divertir com seus amigos.
- Tudo bem tia Anne, volto mais tarde. – Vamos lanchar galera, voltamos depois.
 – Tchau Lady. – Diz Isabely sorrindo e acenando.
- Beijos de purpurina pra você e seu pai minha criança! –  Berra Lady no meio da loja!
- Cruzes, os feromôneos dessa juventude são intensos. – Lady solta uma gargalhada que contagia a loja.
- Uffa! - Escapei pelo gongo, penso aliviada!
- Venha gato. – Lady ordena um rapaz másculo e bronzeado a carregar os manequins.
Atrás do jovem musculoso entra mais alguns  carregando manequins desmontadas.
  Sinto que é minha chance.

Desta vez olho para frente para ver se ninguém me observa, com cautela giro a cabeça para trás e noto que estão todos distraídos. Os subordinados de Lady me ajudam em grande estilo tapando a visão de todos que estão no fundo da loja.

 Tiro meus pés da base, sinto um alivio na minha sola, o vaso que Dona Clarice havia afastado continua no mesmo lugar, dou um passo fora da vitrine, do lado de fora tem um certo agito, uns adolescentes andando em massa ocupados com seus celulares, olho mais uma vez para o fundo, Lady está gritando com um dos grandões, não penso em mais nada, então saio em disparada. Lembro que deixei minha roupa no banheiro para deficientes ali no primeiro andar.

Continuo correndo, mas não quero descer a primeira escada rolante porque daria de frente para a  loja  “Mais Rosa” .  Enquanto corro, “atropelo” as pessoas e vou ouvindo xingamentos e reclamações, mas continuo com energia. Avisto outra escada rolante, me alegro em saber que logo mais estarei trocada e pronta para ir embora. A tentação em olhar para trás é irresistível, olho e me satisfaço em descobrir que não estou sendo seguida, volto minha visão para frente e... PLOFT!
- Sua piranha, não olha por onde anda?! – Grita a voz que me perseguiu por toda a manhã.
Trombo com Isabelly, e juntas caímos ao chão.

- É ELA! – A manequim, que eu disse estar viva, pegue-a gigante – Berra Isabelly .- Considero ser seu segurança ,então a muralha engravatada vem ao meu encontro.
Levanto apressada me esquivando dela, me jogo para cima do gigante, e quando seus braços inclinam -se para me agarrar, eu escorrego passando por baixo das pernas dele.
Em ritmo acelerado e na ausência de meu juízo, roubo o sorvete das mãos do amigo baixinho de Isabelly,  jogando-o por cima dela.
- Seu imbecil, vá atrás dela e a traga para mim. – Ela ordena a Muralha de gravatas.

Desço correndo a escada rolante, tento soltar minha peruca para não ser encontrada com facilidade, mas nada adianta pois ela está tão firme que exige paciência para isso.

- EU VOU TE ENCONTRAR, NÃO ADIANTA FUGIR!
Gritos de Isabelly ecoam pelo saguão do shopping.

Não olho para trás dessa vez, só corro em direção ao banheiro do primeiro corredor perto da entrada principal, e rezo para que minha roupa ainda esteja lá.
Quando entro no banheiro meu desespero aumenta em notar a fila maior do que imaginava.
A ideia que Isabelly possa ter me visto entrar e vir atrás de mim, me apavora. Preciso agir rápido.
 Minhas roupas estão no último banheiro e ninguém irá deixar eu passar na frente.

Em um sobressalto tenho uma ideia, maluca mas é a única no momento. Me afasto da fila e começo a tirar minha peruca, meu vestido ficando, apenas de lingerie e histericamente começo a me coçar e gritar:
- Socorro, socorro,  preciso usar o banheiro! – Cambaleando entre as mulheres e crianças da fila, me coço em desespero alegando ser alérgica a camarão.
- Eu preciso, preciso entrar, me desculpem, mas quando tenho essas coceiras não controlo meu intestino e tenho medo que contaminem vocês, com licença.

- Ecaaa, que nojo! – Escuto a voz vinda do fundo.
- Quem me garante que você está dizendo a verdade? – Me enfrenta a adolescente na ponta da fila.
- Quer fazer o teste? – Pergunto, me aproximando dela e coçando freneticamente meus braços e pernas.
- NÃO, sai pra lá sua bexiguenta . – Afasta- se da fila uma senhora com suas filhas gêmeas.

Estou encenando bem. – Penso aflita com a ideia de que Isabelly apareça a qualquer momento.
Continuo com a interpretação da coceira, jogando minha peruca por cima das mulheres da fila, escuto gritos de asco, sinto alívio no couro ao soltar meu cabelo, e quando a porta do banheiro abre saio em disparada. Sem mais obstáculos acredito que deu certo. Abro a tampa do suporte que guarda o papel toalha e para minha sorte encontro minha roupa dentro do saco plástico, intacta.

Visto  finalmente roupas confortáveis : meu jeans azul escuro, meu baby look azul celeste e meu all star branco, penteio o cabelo, óculos escuros, respiro fundo e saio com passos apressados para não ser interrogada por ninguém.
Quando chego na porta para sair, sou abruptamente jogada para trás, e caio sentada.
- Eu sei que você entrou aqui, o gigante te viu. – Diz Isabelly com a voz enjoada.

- Isa, você derrubou uma garota. – Uma ruiva amiga de Isa me ajuda a levantar. – Isa não diz nada a respeito.
Ela não me reconheceu. – Penso aliviada.
E saio o mais rápido possível caminhando em direção a saída.

 Ao me aproximar da saída o sensor abre as portas, refletindo o sol em meus olhos. Antes de partir meu coração pede para fazer uma última coisa.
Diante da Loja “Menina Mulher”   Denise é o destaque da vitrine.
Com lágrimas brotando em meus olhos, digo:

- VOLTAREI PARA TE BUSCAR, MINHA AMIGA!




Fim


Lu Cavichioli & Patty D’Oliveira






segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Conversa de Vitrine - ato VI

Sentindo na Pele




Enquanto caminhava entre os meus amigos de fibra alegres e desavisados, esboçava um caminho de fuga.
Estava amanhecendo e eu deveria ir embora, mas como faria isso?
Coloco meu pé na escada rolante seguida de Denise e logo atrás vinha Andy. Eles andavam em direção à loja “Mais rosa”.

 Enfim chegamos à porta da loja mais purpurizada do shopping, Denise tira do bolso da sua jaqueta o grande molho de chaves e encontra a chave rosa, me olha esboçando um sorriso doce. Abre a loja e com sua mão plástica faz sinal para eu entrar na “minha loja”. Eu entro trêmula e sem ter a mínima noção do que farei.
 Passando direto pela vitrine, Andy me diz:
Ei mocinha, aonde vai? – Precisa voltar antes que amanheça e você endureça no meio da loja.

Olho para ele como uma manequim petrificada sem conseguir sorrir e volto para onde ele aponta.
-Nossa Antonella, só tem lugar no fundo?!  Porque te colocam tão escondida? – Replica Denise olhando para o fundo da vitrine.
Levo meus olhos para onde Denise está olhando e me preocupo por só ter o fundo disponível. Outras manequins se posicionaram em seus lugares e não era minha intenção ficar no fundo, preciso estar perto da saída para fugir com facilidade.

- Não tem problema, posso trocar. – Respondo preocupada.
- Eu te ajudo. - Disse Andy trocando uma cadeira pink aveludada, levando- a para o fundo, deixando um espaço para mim na frente.
-Ei pessoal, agradeço a ajuda e a companhia, podem voltar para suas vitrines. - Digo sorrindo antes de entrar na vitrine.
Denise me olha séria, me abraça rapidamente e sai apressada.
-Falta pouco. – Penso aliviada.

Denise e Andy caminham para fora da loja e algo que não tinha pensado acontece: Denise tranca a loja novamente.
-E agora?! – O desespero aumenta. – Como sou desavisada! Serei pega pelo dono da loja, chamarão a polícia e serei presa por invasão.
 Assustada em meus devaneios de medo, me assusto com um alarme alto e a voz de Andy ecoa pelo corredor:

- Depressa bonecos e bonecas, corram para suas lojas, este é o primeiro sinal que a segurança abrirá as portas, hoje nos atrasamos.
Depois que o alarme silencia, algumas luzes começam a acender, eu ainda estou fora da vitrine pensando onde me esconder.
- Vai ficar aí até petrificar? – Escuto uma voz fina próxima a mim, olho e vejo Penélope.

 – Sai pirralha, que a poltrona é minha! - Ela diz com arrogância.
Penélope me empurra com seu cotovelo, entra na vitrine, senta e cruza as pernas na poltrona macia. Ela está realmente exuberante dentro de uma mini – veste de paetê prata e rosa, um tomara que caia e uma sandália prata com pedrarias em cristais que ajudavam a disfarçar seu sexto dedo.

- Você não deveria estar na loja “Divas”?  -Pergunto confusa.
-Não devo satisfação a uma pirralha como você, mas como ficarei aqui o dia todo sem fazer nada eu digo:
- Fui trocada com outra manequim, a dona dessa loja estava louca por mim, precisava de uma diva na vitrine dela.
O asco tomou conta de mim no mesmo segundo, ela deve ter notado minha expressão e continuou sem se importar:

Penélope



- Sobe ou a segurança irá te pegar.
Não tive outra alternativa e subi na vitrine. Encaixei meu pé na base que sustenta um manequim, escolhi a posição menos desconfortável, olho para Penélope mais uma vez para me inspirar e me assusto.
Penélope está endurecida na poltrona!
Escuto passos se aproximando, então mudo a posição. Abaixo levemente a cabeça porque sei que não conseguirei ficar imóvel por muito tempo.  
Escuto molho de chaves, a porta abre, luzes acendem.
Identifico os passos e o som vem através de  um salto alto, acompanhado de um perfume doce e a voz rouca , já reclamando:

- Aquela destrambelhada não me ajuda em nada, quer sociedade e não chega um dia cedo!

O telefone toca.

- “Mais Rosa”, bom dia! Sim, sou eu Anne... Oi D. Clarice, estou bem, e a senhora? –
Houve um silêncio e fico imaginando qual seria o assunto, enquanto Anne ouve Dona Clarice. Ouço um som de gavetas e o molho de chaves antes de Anne retornar a falar:
- Por que está pedindo de volta a manequim e a poltrona?
O silêncio ecoa novamente.

- Sinto muito Dona Clarice, já arrumamos a vitrine ontem, a manequim e a poltrona já estão acomodadas como destaque, não posso e não quero mudar isso.
Anne caminha lentamente enquanto escuta Dona Clarice.
Eu tenho vários outros manequins, troco se quiser, mas a que pegamos ontem com a poltrona é impossível. – Anne diz com antipatia.
Anne caminha para o fundo da loja e sua voz fica distante.
- Venha Dona Clarice, fico no aguardo, estou abrindo a loja, passo um café para nós, e quando chegar a senhora pode escolher a manequim que preferir, exceto a que trocamos ontem.

Anne desliga e resmunga alto com a voz meio rouca:
- Essa senhora acha que não tenho nada para fazer, fica brincando de troca-  troca, e agora terei que desmontar toda minha vitrine novamente por causa de um capricho ridículo desses...
Anne para ao lado da vitrine, agacha ao meu lado, e recolhe um papel amassado que está perto dos meus pés. Com meus olhos paralisados no chão observo sua mão bronzeada com as unhas feitas e neste momento prefiro não respirar com medo de ser notada e sinto uma imensa vontade de fazer xixi.

- Bom dia! – Uma voz alegre de menina soa pela loja.
- Bom dia “princesa”. – Responde Anne com satisfação.
- Preciso de um vestido novo tia Anne. – Repete a voz que consigo distinguir ser adolescente.
- Com certeza, me acompanhe docinho. - Anne sorrindo caminha até a porta da loja, seguida pela garota, saindo da loja e ficando em frente à vitrine.



Isabelly


- Já me decidi. – Retruca a mimadinha entrando na loja. – Quero esse vestido que está ali, sabe, aquela manequim de cabelinho curto. – apontando para mim.
Anne segue a garota dizendo feliz:
- Se você desejar mostro outros modelos, tenho sandálias, joias, tudo que já conhece.
- Pode mostrar tudo tia!
- Acho que não Isabelly. – Entra um homem de sapato de verniz grafite com passos elegantes, parando logo atrás de Isabelly. – Ela se vira e responde manhosa:

- É lógico que pode, tenho meu cartão e posso pagar.
- Esse cartão está bloqueado mocinha, por este mês já chega. – Ele diz repreendendo.
- Você bloqueou meu cartão pai?
- Vamos embora. – Ele ordena.
- Eu não saio daqui sem meu vestido.
-Eu parcelo Sr. – Diz Anne com a voz suave.
- Peço desculpas , mas preciso colocar um freio nessa menina.
- Mas paaaiiii! – Responde Isabelly   chorosa.
- Quem sabe no próximo mês.
- Próximo mês pai? – Eu preciso hoje deste vestido, tenho a festa da Katy.
- Não irá precisar de vestido algum, não irá em nenhuma festa. - Ele responde secamente.

- Vou sim, mamãe deixou.
- Venha, não tenho tempo para choro de criança.
-Solte-me, está machucando. –
- O Senhor tenha calma por favor, ela só uma criança.  – Diz Anne aflita.
- Gostaria que a Senhora não se metesse, o assunto é entre pai e filha!
- Me largaaaa. – Grita Isabelly.
- Vou chamar os seguranças se o Senhor não soltá-la.  –
Não resisto e dou uma virada rápida para trás para ver o que acontecido.
Vejo Anne caminhando apressada em direção ao botão vermelho que fica no canto esquerdo, no alto atrás do caixa. – Minha curiosidade é tão grande que esqueço por um segundo de voltar a posição anterior, e na tentativa de se desvencilhar das garras do pai, os olhos de Isabelly cruzam os meus.
- ELA VIROU! – Grita Isabelly.
Retorno rápido à minha posição.
- A manequim que está com o vestido que eu quero, ela olhou para mim. – Repete Isabelly.

- Deixa de bobagem garota, não é hora de piadas, vamos embora. Você já foi longe demais.
-Eu já chamei os seguranças, senhor.
- Não será preciso, estamos de saída.
Escuto vozes no rádio... Alguém se aproximando a passos apressados que logo entram na loja.
- Solte a garota. – Grita uma voz grave.
- Ela é a minha filha, e faço o que bem entender com ela. – Responde em tom arrogante.
- Tirem-no daqui. – Exalta Anne.
- Ele está me machucando. – Resmunga Isabelly
A vontade de olhar para trás é tentadora, e no momento em que pretendo fazer isso, uma senhora muito elegante para em frente a vitrine e fica admirando Penélope, em seguida a mim.
Tremo na base! Ela entra e para ao meu lado sem ainda perceber a arruaça no meio da loja.

- Saiam todos da minha frente que preciso sair com minha filha, vocês não sabem com quem estão falando! – Ordena o pai da garota.
Dona Clarice se vira para dentro da loja espantada.
- E quem é você, o Papa? – Pergunta Anne em deboche!

- Filipo Castello!
- Fi fi fi....Você é o Filipo dono do.. – Gagueja Anne.
- Ah eu odeio essa parte. –Diz Isabelly chateada.
- Sim, sou o dono do Shopping, e irei fechar essa espelunca, demitir esses trogloditas se não derem licença. – Esbraveja Filipo.
Os trogloditas se afastam.
- Realmente sua arrogância não tem limite. – Diz a Senhora que acaba de entrar.

- Vovó! – Ressalta Isabelly animada soltando- se dos braços do pai e correndo a seu encontro.
- Vovó Clarice, que bom que a senhora chegou, abraçando-a.
- Dona Clarice, tinha me esquecido da Senhora, ainda não preparei o café.

- O café fica para depois minha jovem, foi bom ter vindo aqui para presenciar mais uma cena deprimente não é mesmo Filipo?
- A Senhora sempre sente prazer quando me humilha mamãe? – Pergunta Filipo em tom desprezível.
- Parem com essa briga, por favor! – grita a menina.
- Tudo bem meu anjo, fica tranquila.
Antes de resolver o que vim fazer Anne, eu aceito um chá, pode ser? E você meu amor, me espere na loja, vá por favor.
Filipo sai emburrado, e a neta sorri beijando a face da avó.
- Tudo bem vovó, mas antes preciso verificar se a manequim está viva, eu a vi me olhando, ela se mexeu.

Dona Clarice solta uma gargalhada e diz:
- Como sempre criativa, minha princesa. Sabe Anne eu costumava contar uma história para ela chamada “CONVERSA DE VITRINE” quando era uma garotinha, e sempre que passava as tardes na loja ela dizia que as manequins conversavam com ela.
Anne e Dona Clarice caem na gargalhada.

- É verdade vovó, não sou mais criança, tenho 15 anos e ela me encarou.
Dona Clarice sorri novamente.
- Agora vá meu anjo. – Diz Clarice carinhosa acariciando o rosto da neta

 -Eu a acompanho até a porta e espero que vá direto para minha loja, lá tem aqueles biscoitos que você adora.
Antes de sair Isabelly para em frente à vitrine , me encara e diz: 

- Eu vi você se mexendo sua cara de pau, sua pele é diferente... seu braço tem pelinhos... muito estranho... E sei que está viva, mas fique calma, não vou contar (ainda) para minha vó. Mais tarde eu volto com a turma e desmascaro você.

Estremeço!

- Vá indo para a loja Isa, a vovó precisa resolver algumas coisas com Anne.
 Isabelly se afasta para meu alívio, dizendo:

- Tchau tia, sorrindo e acenando para Anne que responde carinhosa.
- Até mais querida.
- Agora somos nós duas, e quero ver qual manequim tem para me oferecer.

- Dona Clarice me perdoe, eu não tive tempo ainda de ver isso, mas a senhora fique à vontade, aprecie minha vitrine, escolha sem pressa: – Diz Anne sem paciência.
Obrigada e não esqueça meu chá.
- Irei preparar, a senhora fique à vontade... – Enquanto caminha revira os olhos num tom de deboche.

- Essas jovens acreditam que podem me enganar, começam me agradar e quando descobre de quem sou mãe... - Sempre Falsas! –Diz Clarice em voz alta me encarando.

- E você? – Pergunta Clarice.
Ela está falando comigo? – Penso aflita.
-
- Minha neta disse que viu você se mexer...  Ah, bobagem de adolescente, imagine...Onde já se viu uma coisa dessas! – E enquanto dizia isso ficava me olhando de cima abaixo.

- Ah, e agora, socorro!! Se essa mulher continuar me olhando fixamente não sei até quando vou aguentar, porque estou com uma coceira no pescoço que não suporto mais e meu pé direito está formigando. E foi aí que D. Clarice afasta um pequeno vaso branco que está encostado em mim, entra na vitrine e vem me olhar de perto. Senti um pavor tão grande que fiquei petrificada como nunca estive.

- Hummm, que manequim estranha essa, tem a pele diferente, será que já me enviaram as bonecas de exportação vindas da Coréia? Preciso verificar com a administração. – Dizendo isso, a velha senhora sai da vitrine e eu consigo puxar o fôlego.

- Dona Clarice, seu chá, por favor, sirva-se.
Anne, me explique por favor...
_Sim, D. Clarice, pode falar.
Essa manequim de peruca Chanel preta e toda rosinha é nova?
Creio que não, por que?
Nada em especial, é que ela é tão bonita e diferente, quero essa vou leva-la.

- A senhora é rápida. – Achei que íamos almoçar juntas e discutirmos a troca de manequins. – Diz Anne com desanimo.
Ah, querida, nada impede de almoçarmos juntas, quero mesmo discutir sobre essa belezinha que está na poltrona.
-  Claro, a senhora quem decide. Assim que Margot chegar e ficar aqui, passo na sua loja e vamos, está bem assim?
-Combinado, até mais.

- Meu Deus o que será de mim? – Sinto um fio de suor escorrer pela espinha. Estou com vontade de ir ao banheiro, que sufoco! Preciso fugir – penso angustiada.



Será que D. Clarice fingiu que vai levar Antonella, ou está apenas disfarçando e já percebeu que ela é humana?

Aguardem o ato VII